Sem nome

Antes de tudo, vamos deixar claro um ponto: estou com medo das palavras que estão por vir (e isso eu explico mais tarde). Mas não é aquele medo que te impede de avançar. É aquele outro tipo de medo curioso que te faz dar o próximo passo, só pra ver em que lugar você vai cair – ou que asas vão te guiar pro voo.

Foi há seis anos, se não me falham as contas. É, não me falham, porque sou bom com datas – e ainda não sei se isso é defeito ou qualidade, mas aí está: seis anos.

Foi naquele tempo em que eu já sabia quem era, mas não sabia o que procurava. Até que te encontrei, assim, completamente sem querer. Aliás, eis uma verdade que Caio me ensinou: “É preciso estar distraído, e procurando absolutamente nada”. É aí nesse de repente escondido entre as outras coisas da vida que a gente encontra.

Colecionei uma quantidade incontável de textos, letras, músicas, pensamentos, choros e velas por você. Tentei me libertar de você por tantas inúmeras vezes, que nem sei. Em todas elas, achei que tinha conseguido, mas você insistia tanto em acordar comigo e dormir comigo e passar o dia todo tão presente em tudo que eu fazia, em todos os lugares onde eu estava, em todos os pensamentos que eu pensava. E você nem sabia.

Mas teve um dia que eu resolvi que você deveria saber. E demorou um tempo até eu encontrar o dia em que você soube. E não poderia ter sido mais perfeito. Agora, me lembrando, até suspiro. Lembro-me até da música que estava tocando na hora, mas não vou mencionar aqui porque é um pouco brega, admito. E se alguém algum dia me mostrar um momento lindo que não seja pelo menos um pouquinho brega, eu juro que vou duvidar.

Mas aquele momento lindo, obviamente, não viria desacompanhado. Veio com todo o seu passado, veio com toda a minha vontade de futuro. Veio com todo o felizes-para-sempre e com todo o curtir-o-momento.

E ali houve a divisão da minha vida.

E tantas vezes eu me perguntei o que havia nessa conexão que me fazia te querer tanto e me querer tão pouco; em que momento eu tinha me esquecido da minha vida pra viver a sua. E eu respondia: “É porque você ama, Anderson”. E me acalmava. Porque achava que amar essa tão sublime, que mesmo me consumindo tanto, estava tudo bem.

E aí você começava a namorar. E aí o meu mundo caía despedaçado. E eu chorava, e perdia noites de sono gastando minhas lágrimas pra acalentar minha dor. E aí eu te via feliz, e pensava que se assim estava bom pra você, então estava bom pra mim também. Porque não parece, mas eu sou capaz de ficar bem quando vejo que há alguém mais capaz que eu de fazer felizes as pessoas que me são queridas.

E aí o seu namoro acabava, e aí você lembrava que eu existia, que eu te gostava, que eu te queria. E aí sim você me queria. Aí sim parecia que você me gostava. E eu, tão ou mais carente que você, te queria mais ainda por saber que você me queria. E você me enganou todas as vezes. E eu me deixei enganar todas as vezes. “É porque você ama, Anderson”.

Mas houve aquele dia em que você nos comparou à Cazuza e Ney Matogrosso. Aquele dia que eu soube que o Cazuza “sempre dava seus pulinhos por aí, mas sempre voltava pro Ney”. E nem aí eu percebi o nosso erro: o Ney só não se cansou do Cazuza porque ele morreu antes. E embora pouco eu saiba, acredito que esse é o melhor e mais infalível erro de deixar que as coisas vão: elas indo, partindo mesmo que não se queira que partam.

Mas você não partiu. Pelo contrário, voltou muitas vezes ainda, como havia prometido. E eu, por tantas vezes quantas você voltou, abri minha porta ao seu toque, te acolhi com sorrisos e abraços e toda ternura que existia em mim. Aliás, posso até dizer, sem nem um traço de mentira, que minhas portas nunca se fecharam pra você, que nunca houve portas, que as passagens estiveram sempre livres. Porque não sou o tipo de pessoa que impõe barreiras aos sentimentos bonitos, às presenças, aos abraços, às conversas.

Porque eu aprendi, de um jeito bem difícil, que as relações devem ser preservadas entre os que se gostam. E aprendi pra nunca mais esquecer, e nunca me esqueci. E é exatamente por isso que quero preservar o nosso gostar. Porque talvez não pareça, mas ainda te gosto, ainda te quero perto, ainda quero te abraçar, ainda quero que tenhamos conversas longas sobre mil assuntos diferentes. Porque eu não abro mão das pessoas, porque eu aprendi, de um jeito bem difícil, e há muito tempo atrás.

Lembrei-me que preciso te pedir algo. Lembrei que quero que você me perdoe. Por todo esse peso que joguei sobre seus ombros com todo esse jeito escorpiano-chorão-ciumento-possessivo que eu tentei esconder pra não te assustar, mas que não consegui. “Porque eu sou poeta e não aprendi a amar” na medida certa, pra que tudo não se tornasse tão imenso e pesado como se tornou. É que eu não sabia ser de outro jeito que não esse.

Você me ensinou a beber. Você encheu meu primeiro copo e riu do meu primeiro porre. São coisas que pretendo guardar. Você me beijou primeiro, você esteve numa praça comigo primeiro, você esteve num banheiro comigo primeiro. Devo agradecer?

Caso deva agradecer por isso, então devo também agradecer pelas lágrimas, pelos momentos de raiva seguidos delas, e pelos momentos em que não quis nunca ter te conhecido com aquelas unhas pretas tão rock’n roll fajuto que você exibia e que eu detestei. Há seis anos.

Você nem mudou tanto assim, sabe. E talvez nem eu o tenha. Mas aprendi um pouco durante o caminho. Aprendi, por exemplo, a não ter medo de estar sozinho (aprendi até a gostar um pouco disso). Conheci muitas pessoas, de um tempo pra cá. Não – só – amorosamente, claro. Aprendi que o mundo é bem grande fora daquele mundinho em que eu pensava que chorar por você era o mesmo que te amar. E nesse mundo grande, descobri algumas outras coisas sobre mim também. Descobri que posso querer, mas não devo implorar. Porque implorar é invadir um espaço onde não se é bem vindo (porque se o fosse, não seria necessário implorar, é claro), e também porque é uma falta de respeito muito grande com o espaço do outro. Mesmo que se goste, mesmo que se queira muito.

Descobri isso, e não vou mais insistir com você. E não só por ser falta de respeito, mas também porque estou cansado, porque esperei demais de alguém que nem ali estava. E não estou te culpando. Pelo contrário, a culpa – se é que há – é minha, porque não consegui ver que você não estava ali. E, mesmo quando pude ver, não quis enxergar.

Mas hoje eu enxergo. Hoje percebo que eu era mais Mônica que Eduardo, na nossa história cantada. E te dou, mesmo depois de tanto tempo, razão quando você disse que havia uma Mônica pro seu Eduardo, enquanto você era a minha Mônica. Talvez tenha sido só um timing horrível, no fim das contas.

Certo é que nunca pensei que colocaria nisso um ponto final. Certo é que você não colocará jamais. Porque tenho observado que nunca nada termina na sua vida. Mas poxa, ainda agora disse que aprendi a não me afastar das pessoas, não é? Devo uma explicação: mudar é diferente de acabar. Não quero que acabe, mas quero que mude. Quero que mude porque não consigo mais ser aquele que sempre dá tudo e quase nunca ganha nada. Não que se deva colocar tudo na balança, mas é que chega uma hora que a gente percebe que merece mais.

E que talvez seja um mais que você não pode oferecer. Talvez você já dê tudo que tem. Me desculpe novamente, mas devo te dizer: não é suficiente. Não é suficiente me deixar falando sozinho, seja por SMS, seja por MSN, seja por onde for. Porque eu mereço mais. E se você não consegue enxergar isso, eu lamento profundamente, mas eu não posso mais abrir mão de mim por alguém que não consegue ver o quanto eu estive disposto a dar – e dei – sem que mal se percebesse.

Sim, “eu estava aqui o tempo todo, e só você não viu”. E, se viu, fingiu muito bem não ver. Até hoje funcionou, cada vez que você correu de mim eu me submeti mais. Por um tempo, era porque eu te amava, sim. Depois, era porque eu te amei. Depois, era porque eu estava carente, com saudade.

De qualquer forma, estou com medo desse outro “depois” que está por vir. Porque não quero pensar, daqui um tempo, que eu fiz menos do que poderia ter feito por nós. Não quero pensar que deveria ter me dedicado mais, não quero pensar que “e se…?”. Porque não estou acostumado a me arrepender. Consigo contar nos dedos de uma mão as vezes em que isso aconteceu, e eu desejo profundamente que esses seis anos não façam parte dessa contagem. Porque quero realmente que isso fique onde está: no passado.

E pensando agora, eu compreendo que fiz mais do que pude, fiz mais do que qualquer outra pessoa faria por você, fiz mais até mesmo do que eu faria por mim. E fico tranquilo. E desejo de todo coração e com toda força que consigo ter, que você seja muito feliz, muito mesmo. E que se o futuro nos cruzar de novo, que dessa vez estejamos prontos de verdade, seja pro que for.

Essas são minhas palavras de despedida, que me doem tanto agora, mas que vão me fazer bem. São minha despedida pra esses seis anos em que tive por você todo amor que jamais tive por alguém, por toda dedicação com que pensei em você todos os dias, todo o tempo.

E desejo uma última coisa: que o mundo seja bom conosco, que nos traga força pra vivermos os dias sem nos deixar engolir por eles, e que possamos ver alegria mesmo quando a dor insiste. E que haja ombros dispostos às suas lágrimas, às minhas lágrimas. E olhares bondosos e risonhos como nossos risos. E que haja abraços quentes, de ursos – pandas ou não.

É o que desejo pra nós.

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2 comentários sobre “Sem nome

  1. Ainda o acho catártico, mas hoje fiquei um pouco triste ao lê-lo. Porque você merece tanta coisa, que não cabe aqui dizer. Você é um homem maravilhoso, Anderson. É uma mistura de todo homem que existe. Você é meio que resultado. É estranho a sensação que tenho toda vez que falo com você. Porque apesar de saber que você é um cadinho menor do que eu, eu sumo debaixo de tanta tamanheza.

    Bom, ainda te amo, mais e mais!

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